Prisões

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            Certo dia, enquanto fazia minha caminhada matinal de domingo, observei um senhor com dificuldades psicológicas para executar o caminhar. Embora não tivesse qualquer problema nas pernas, não conseguia ultrapassar determinado risco do chão (uma linha branca que cortava o asfalto da praça no sentido horizontal). Não sou psicóloga; não sei o nome técnico que se dá a esse tipo de transtorno, mas não importa.

            Senti grande empatia por esse desconhecido que tentava disfarçar a própria limitação. Envergonhado, olhava para baixo, para o lado e retornava a seu ponto de início sem conseguir ultrapassar a linha branca do chão.

            Obviamente, também olhei para baixo, retirei o meu olhar, pois não desejava deixá-lo ainda mais embaraçado e constrangido. Contudo, não deixei de notar a sua aflição, a sua necessidade de liberdade, a sua prisão.

            Ajudá-lo? Retirá-lo à força da escravidão mental em que se colocou? Não. Somente ele poderia se libertar. O mundo está cheio de linhas e divisões, imaginárias e reais.

            Temos, também, as nossas prisões. E, ainda que as nossas dificuldades não sejam reconhecidas ou catalogadas pela ciência como um transtorno, não deixam de ser limitações que nos impedem o desenvolvimento pleno. Fobias, pânicos, compulsão, preconceitos, ansiedade, consumismo descontrolado, necessidade exacerbada da aprovação do outro são formas de escravidão mental. Muitos de nós carregamos essas características sem sequer nos darmos conta de que há algo cerceando o nosso crescimento interior.

            Quantos, por fobia à miséria, não se apegam, demasiadamente, aos bens materiais, deixando de notar que o essencial é invisível aos olhos[1]?

            Quantos, por preconceitos múltiplos, deixam de se dar a chance de criar uma nova e sincera amizade, esquecendo que dar uma chance ao outro é , na verdade, uma forma de fazer bem a si mesmo?

            Quantos, por necessidade da aprovação social, deixam de ter a vida que gostariam de ter?

            Quantos, para curar um vazio existencial, não se perdem em seu consumismo insaciável?

            De que nos adianta tentar disfarçar as nossas limitações através das distrações da vida? As limitações estão conosco quer queiramos quer não. Mas nosso espírito, sábio por natureza, quer a liberdade dos entraves mentais em que nos colocamos, quer cruzar a linha do asfalto. Sem isso, somos eternos insatisfeitos, conscientes ou inconscientes de nossa escravidão mental. E sabemos que ninguém, além de nós próprios, poderá cruzar essa linha.

 


 

[1] Lembrando de Antoine de Saint-Exupery, em sua notável obra O Pequeno Príncipe.

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