No Vale Encantado

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            Parecia fim de tarde naquele estranho vale. O sol estava quase se apagando e, entre as esparsas nuvens, fulminavam raios solares de diversas cores, nos mais ternos tons.

            Silvana sentia todos aqueles raios multicoloridos invadindo o seu ser, trazendo paz e serenidade reconfortantes.

            Mas, por que estaria ela ali naquele vale encantado? O que ou quem a teria levado àquele mágico e indescritível local?

            O mais estranho é que não parecia haver ninguém por lá. Não havia ninguém para explicar, ninguém para se questionar.

            -Tem alguém aí? Perguntava Silvana com a voz já rouca e alta, mas ninguém respondia. Extraordinário que, apesar da total ausência de uma única pessoa visível, e sem entender o que fazia e por qual motivo estava naquele local, não existia medo em seu ser. Ausência total de medo.

            Deveras impressionante, pois sempre fora uma pessoa extremamente medrosa, pensava. Que força haveria ali para retirar dela qualquer tipo de pavor ou pânico? Que tipo de confiança aquele local lhe trazia a ponto de sentir-se bem ante a solidão total do mundo?

            Embora, inadvertidamente, reclamasse das pessoas, sempre teve o hábito de cultivar as amizades, de se manter presente entre todos. Jamais gostou de ficar sozinha, mesmo em sua própria casa. Mas, ali, naquele vale encantador, tudo parecia diferente. Seria capaz de ir à guerra, levantando uma simples bandeira de paz, em meio a armas atômicas e homens cruéis. Naquele lugar mágico, conseguiria confiar em um futuro brilhante, apesar de, pela primeira vez, não entender o que estava acontecendo.

            Olhava o horizonte e esse lhe parecia cada vez mais belo. A amplitude do céu, o cheiro da natureza, o reluzir das águas diante do sol, a leveza de seu ser, a sensação de estar perto de Deus ou algo muito próximo a Ele, que nunca poderia explicar e nem teria a pretensão de entender por completo.

            De repente, surgiu uma ideia, de certa forma, petrificante: será que havia feito a passagem?

            Afinal de contas, tinha certeza de que não estava dormindo. Mas, se houvesse morrido e não se desse conta, onde estariam as pessoas, por que todos se esconderiam dela?

            Olhando para o céu, as estrelas começavam a aparecer e, num toque mágico, como se um garoto começasse a pintar o papel, o céu encheu-se de estrelas lindas, que pareciam cair sobre a terra.

            Meu Deus, meu Deus, por mais que se esforçasse, não conseguia se lembrar do que teria ocorrido para estar ali.

            Se tivesse feito a passagem, não teria levado consigo qualquer dor, qualquer ressentimento, e até mesmo a consciência de seu próprio eu parecia adormecida naquele vale encantado.

            Seu coração, então, começou a pulsar mais aceleradamente. Avistou uma ponte, pequena e simples, mas extremamente bela naquela paisagem inusitada. Devia seguir???

Estranho como, às vezes, sem entender o porquê, sentimos quando coisas importantes estão prestes a acontecer. Aguardou. Respirou fundo. E, numa calma transcendente, entendeu que devia voltar. Ainda havia muito a fazer. De alguma forma, percebeu que poderia escolher, mas ainda havia muito a ser realizado. Preferiu continuar.

            Sentiu, então, mãos calorosas segurando as suas mãos, e com um largo sorriso indescritível, alguém especial dizia:

            -Ela voltou, ela voltou!!!

            Os médicos da UTI, então, iniciaram um bombardeio de exames, que a faziam achar tudo muito engraçado.

            -Sim, sim, sim, eu voltei, eu voltei, novinha em folha!!!

            Daquele dia em diante, a vontade de realizar, de amar, de perdoar conseguiu superar qualquer tristeza, qualquer ressentimento, qualquer dor sufocada no peito. Não sabia explicar, mas o vale encantado fazia eco em seu ser, iluminando seus passos, despertando alvoradas pelos eternos caminhos que nos guiam ao aprendizado. Desistir da luta? Jamais.

            Uma força irresistível a acalentava de qualquer desgosto, não havendo tempo para lamentações ou pensamentos autodestrutivos. Sim, ainda que tudo parecesse descoordenado no mundo, o vale encantado existia, com uma força superior e maravilhosamente bela, guiando tudo o que se sucede e ainda que não se entenda.

            Silvana sorria. Ninguém entendia. Mas ela simplesmente sorria.

 

 

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