Carta ao meu amigo Antoine de Saint-Exupéry

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          Definitivamente, “O Pequeno Príncipe” não é um livro para crianças. Ops, melhor dizendo, “O Pequeno Príncipe” não é um livro para crianças e sim um livro para a criança que habita em nós, os adultos. De fato, se prestarmos atenção à dedicatória, seu ilustre autor, Antoine de Saint-Exupéry, dedicou-o à criança que um dia foi o seu melhor amigo, Léon Werth, um adulto.

            De fato, precisamos da capacidade de reflexão de um adulto para entendermos um pouco da genialidade de Antoine de Saint-Exupéry. E, também, muita alegria, inocência e a pureza de uma criança para conseguirmos adentrar em seu verdadeiro e lindo mundo mágico. Então, com licença, mas acabo de libertar a criança que existe em mim, prosseguindo assim até o final deste texto. Espero que vocês façam o mesmo.

            Olhe só como os adultos interpretam mal as coisas, amigo Exupéry. Pensam que o desenho de uma jiboia que engole um elefante é um chapéu. Sim, amigo, como é chato ter de explicar as coisas para os adultos o tempo todo. Concordo com você. Não conseguem perceber a evidente diferença entre um chapéu e um elefante dentro da barriga de uma jiboia.

            Quer ver outra coisa que os adultos não conseguem entender? Aquela famosa e popular sentença de seu lindo livro: “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.” Os adultos restringem por demais o alcance dessa profunda frase e a ligam ao cativeiro irremovível de uma conquista amorosa. Algo do tipo, me cativou, agora me aguente para todo o sempre.

            Chega até a ser engraçado como isso é levado a sério pelas pessoas sem uma real interpretação de algo muito mais profundo e genuíno.

            Mais uma vez teremos de explicar as coisas aos adultos, mas essa tarefa não é nada fácil, pois eu, querido amigo, jamais conseguirei externar o todo que essa oração aparentemente singela representa. É o tipo de coisa que você sente, percebe, mas qualquer tipo de explicação acaba por ser limitativa. Afinal, não dá para elucidar a genialidade de coisas que tocam o nosso coração. De qualquer forma, vamos nós:

            Ser eternamente responsável por aquilo que se cativa significa que todos os nossos atos, todas as nossas ações e pensamentos têm reflexos eternos; que retorna a nós tudo aquilo que oferecemos de nós mesmos ao universo, às pessoas, ao mundo; que estamos em constante troca e, dependendo daquilo que doamos, recebemos as consequências em nosso favor ou em nosso desfavor, inclusive no amor. Ou seja, somos os únicos responsáveis por aquilo que entendemos por destino. Sendo assim, temos o real poder sobre aquilo que nos ocorre, afinal a escolha daquilo que cativamos ou deixamos de cativar será sempre uma escolha pessoal e intransferível. Podemos mudar a realidade sempre que desejarmos já que depende de nós, e dispomos da eternidade para isso, atrair aquilo que nos tornará felizes, através do “objeto”, “sentimento”, “vibração”, “aspiração” que cativarmos.

            Se, por exemplo, sou grata e cativo em mim gratidão sincera, o universo devolve ao meu ser essa mesma gratidão, retribuindo ainda mais aquilo a que tanto sou agradecida. Se, por outro lado, tenho sentimentos negativos, como o ódio, o universo garante que esse mesmo ódio, de alguma maneira, retorne a mim. Cativando o amor verdadeiro e sincero, terei esse mesmo amor livre em meu coração. Com isso, florescerá o que existe de mais belo em meu pequeno planeta interpessoal, em meu habitat natural.

            Se aquele que ama uma rosa a abandona, terá de conviver com as consequências desse ato. Sentir-se-á livre, mas essa liberdade nunca será suficiente para que se perceba completo. Sempre faltará a rosa, mas aquela rosa, pois ainda que outras existam igualmente belas, nenhuma delas é aquela a que se permitiu amar, de que se permitiu cuidar.

            O sentimento de responsabilidade, inerente ao amor e ao “cuidar”, traz consequências em quem cuida, em quem ama, em quem cria vínculos. Essas consequências estão conectadas com a ideia de fazer bem ao ser amado, em não magoar aquele a quem nos sentimos no dever voluntário de cuidar.

            Ah, amigo, os adultos não gostam dessa história de energia, vibração, universo, amor sincero e metáforas com rosas…eles dizem que é “viagem”, coisa desse pessoal maluco que não tem mais o que fazer.

            Lembra, eles são muito parecidos com o homem de negócios, que precisava infinitamente contar as estrelas, que não tinha tempo para futilidades. Para os adultos, o “ter” é muito mais importante que o “ser”. “Adquirir”, “consumir”, “comprar” é muito mais valioso que “cuidar”, “amar”, “sentir” e “conectar”.

            Em alguns outros casos, parecem também com o homem vaidoso, que adorava os holofotes que lhe lisonjeavam a imagem. A “consideração”, a “estima”, os “títulos” que ostentam perante os seus pares são muito mais atraentes. A vida simples e as coisas aparentemente singelas, como o autoconhecimento e os sentimentos, não lhes trazem qualquer tipo de interesse. O que lhes importa é a admiração que são capazes de gerar nas outras pessoas. Não conseguem escutar qualquer reflexão que lhes possa diminuir a consideração social. Por essa razão, não têm motivação para esses assuntos.

            É por isso que eu gosto de conversar com as crianças, amigo Exupéry. Elas sim ainda não esqueceram quem são. Elas entendem muito melhor as coisas…

            Agora, preciso ir, já é tarde. Conversamos em uma próxima carta, amigo. Adeus.

http://obviousmag.org/pausa_virtual/2015/carta-ao-meu-amigo-antoine-de-saint-exupery.html

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